Entenda o que é “black bloc”.

 

Sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, em entrevista à Folha

Sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, em entrevista à Folha de São Paulo

26/10/201303h27

Esses grupos nasceram nos anos 70 na Alemanha, na luta contra a energia nuclear. Na década de 80, adquiriram uma ideologia autonomista. A ideia de que “temos que criar na sociedade espaços de autonomia que não dependem do capitalismo e que, portanto, podem oferecer outra maneira de viver”. Tiveram muita repercussão. No momento em que começam os protestos contra a globalização, Seatle (EUA) é o marco, eles começaram a assumir duas características de sua tática: de um lado a ideia de violência contra propriedades símbolos do capitalismo, que pode ser um McDonald’s, um banco; de outro lado, a defesa dos manifestantes. Eles assumiram isso. Em muitas mobilizações, foram eles que, diante da violência policial, defenderam mais eficazmente os manifestantes pacíficos. Então a violência policial, no meu entender, é uma das grandes responsáveis pelo protagonismo “black bloc”. Eles enfrentavam. E a notícia muitas vezes passava a ser o enfrentamento entre os “black blocs” e da polícia. Um terceiro fator que complica, principalmente a partir do ano 2000, isso está documentado, é que a polícia infiltra o “black bloc” para depois justificar sua violência. Isso está demonstrado em vários países. E este é o contexto em que nós estamos.

Mas como entender o “black bloc”? Não são grupos de extrema-direita. Eu penso que, acima de tudo, temos que entender por que surgem esses movimentos. E encontrarmos, através do diálogo, formas de ver se estas são as melhores formas de luta. No meu entendimento, como já disse, estamos num momento político daquilo que chamo de guerra civil de baixa intensidade. Numa guerra assim, queremos que cada vez mais gente venha para a rua. No meu entender, para fazer pressão pacífica sobre os Estados. Quando o capital financeiro será cada vez mais influentes, quando as Monsantos conseguem pôr no Congresso a [semente] Terminator, quando os evangélicos dominam a agenda política, quando os ruralistas dominam a agenda política, os governos, mesmo que tenham uma orientação de esquerda, precisam ser pressionados de baixo. A partir de baixo. E essa pressão tem de ser pacífica. E tem de ser inclusiva. E para ser inclusiva tem de trazer para a rua as pessoas que nunca foram para a rua, os chamados despolitizados, as avós, os netos. Ora bem, se é esse o objetivo, o “black bloc” é uma força contraproducente. As pessoas querem ir para a manifestação, mas com medo que haja violência, com medo da brutalidade e violência policial, dizem ao final “não vamos”. Penso, portanto, que o “black bloc” deve analisar em que contexto nós estamos.

O ex-presidente Lula fez uma crítica direta ao uso das máscaras. Disse que participou de muita manifestação de rua, mas que nunca usou máscara porque não tinha vergonha do que fazia.

Eu acho que é uma posição legítima, mas não sei se é a única resposta que se pode dar. As pessoas têm suas formas de representação. Exemplo disso é o governo do Peña Nieto, o [partido] PRI, no México, que eu considero de direita. Nas últimas manifestações, o protesto de professores no México, teve a presença dos “black blocs” com as máscaras negras. E chegou ao ponto também em que o governo está para promulgar uma lei que proíbe as máscaras. Sabe qual foi a reação? Os homossexuais começaram a usar máscaras pink. Foram para os protestos com
máscaras cor-de-rosa, máscara homossexual. Então a polícia vai prender? Eles não praticam nenhuma violência, usam máscara agora para afirmar a diversidade sexual. Isso é para ver como a coisa é complicada. Criou-se uma solidariedade entre os homossexuais e o “black bloc”. Então, por vezes, as autoridades se excedem na forma. Eu penso que essa não é a forma. Penso que a forma é de dialogar, de trazer para uma mesa de conversa. Obviamente é uma discussão muito difícil, mas é uma discussão que é preciso ter.

BOAVENTURA DE SOUZA SANTOS Sociólogo português, 72 anos

VIDA ACADÊMICA Doutor pela Universidade de Yale (EUA), professor da Universidade de Coimbra (Portugal) e da Universidade de Wisconsin (EUA)

Leia  a entrevista completa clicando aqui: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/10/1362319-dilma-tem-grande-insensibilidade-social-diz-guru-da-esquerda.shtml

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3 Responses to "Entenda o que é “black bloc”."

  1. Luiz Müller disse:

    Mas não era justamente o diálogo que aquele soldado da PM de São Paulo estava tentando com os caras, quando apanhou?? Os Black Bloc tem esta origem idealista sim. Mas no Brasil tomaram um caráter fascista, de franco questionamento do governo e das instituições, sem propor absolutamente nada e nem propor mudanças realizáveis. Os Black Bloc no Egito apoiaram os golpistas militares contra o governo legitimamente eleito: Leiam o texto http://luizmullerpt.wordpress.com/2013/10/26/no-egito-black-bloc-fomentaram-golpe-e-atacaram-manifestantes-contra-militares/

  2. CB disse:

    significado de black bloc: bloco negro……..

    fala sério né!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    bando de vagabundos que querem fazer história no Brasil……………………………………

    simples assim.

  3. Neto disse:

    Violência Policial? Quem é esse professor de Portugal pra querer entender a ideologia de um grupo de baderneiros aqui no nosso Brasil? Ele fala que esses baderneiros tiveram origem na proteção de manifestantes contra a polícia? Que besteira sem tamanho. A Polícia Militar é a instituição garantidora da democracia e dos Direitos Humanos, do Estado Democrático de Direito, do direito a manifestações ordeiras, tenham elas o teor que tiverem. Esses baderneiros black blocs não podem ver isso. O Estado através das forças de segurança, garantindo o direito de manifestação dos cidadãos de bem. São os mesmos que promovem desordens em dias de jogos de futebol, são os mesmos que depredam terminais de ônibus, são os mesmo que enfrentam o cidadão de bem que quer se manifestar, e é protegido pela Policia Militar.

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