Nunca diga ao seu filho “a polícia vai te levar” quando ele fizer algo errado

por Gustavo Marques 01/10/20 10h08 – Atualizado: 01/10/20 10h15

O menino Pietro Henrique Machado, 6 anos, não só não tem medo como sonha em ser policial. Foto: Lineu Filho / Tribuna do Paraná

Sirene ligada, arma em punho e o uso de força em casos extremos. Com o lema servir e proteger, o policial é preparado para enfrentar todos os tipos de situações. No entanto, quando encontra uma criança desprotegida, percebe que o atendimento precisa ser mais humano, unindo razão com o coração.

No começo do mês de setembro, a menina Alana, 12 anos, moradora de Colombo, na região de Curitiba, saiu de casa sozinha para comprar um presente de aniversário para a mãe. Ela foi para um bairro de Curitiba, bem distante de casa. Dois policiais militares a encontraram perdida na rua após uma denúncia por telefone. No primeiro contato com a equipe policial, Alana chorava e não queria ajuda: disse que não confiava na polícia.

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A falta de confiança da população em policiais é um trauma emocional que está presente nas casas de muitos brasileiros. Psicólogos alertam para o fato de que os pais podem ser os responsáveis por este tipo de pavor que as crianças têm da polícia e isso pode ser prejudicial para os pequenos.

No caso da Alana, ela encontrou os soldados Ayres da Silva Alves e Yoriel Fernando de Almeida Barros. Depois de contar sua história, a menina foi surpreendida pelos PMs, que não só a levaram pra casa como fizeram uma vaquinha pra comprar o cachorro que ela queria e até conseguiram doações para a família. Ao final, ela disse que estava muito feliz e não esperava tanto carinho.

O menino Pietro Henrique Machado, 6 anos, não só não tem medo como sonha em ser policial. Foto: Lineu Filho / Tribuna do Paraná

O medo de Alana não é um caso isolado. A psicóloga Priscila Badotti, 41 anos, especialista em atendimento clínico com crianças, adolescentes e familiares, já prestou auxilio em várias casos como esse. Segundo a especialista, a figura do policial está no imaginário da criança por intermédio de brincadeiras. Mas também por programas policiais, séries na TV e até videogame, e a ação desses exemplos nem sempre é positiva.

“Há muitos casos de crianças que têm receio ou mesmo medo da figura do policial. Quanto mais nova for a criança, maior a chance de os temores aflorarem de forma mais intensa. Um exemplo disso são moradores, incluindo as crianças, de uma cidade ou bairro com maior incidência de crimes”, comenta Priscila.

Cuidado com as brincadeiras

Desde pequeno ouvimos dos nossos pais que se fizermos algo errado a polícia vai vir e prender. Na cabeça de uma criança este tipo de pressão pode seguir para o lado do medo e não do respeito às regras. “Esse tipo de atitude deve ser evitada, pois é o suficiente para influenciar o imaginário das crianças, gerando medos e até traumas”, alerta a psicóloga.

Foi o que aconteceu com duas pacientes de Priscila. Uma delas, uma criança de 8 anos entrava em pânico só de ouvir o som da sirene de uma viatura. “Ela lembrava o dia em que a polícia foi chamada para que levasse o pai dela após uma briga do casal. Ele presenciou o pai sendo colocado no carro à força pelos policiais”, conta a psicóloga.

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Outra criança de 5 anos tinha medo de policiais e chegava a ter pesadelos recorrentes. “Ela teve o pai morto por uma bala perdida numa troca de tiros entre bandidos e a polícia quando tinha apenas 1 ano e só ouviu as histórias contatas por terceiros”, explica Priscila.

Para que esse trauma da polícia seja evitado, a psicóloga enfatiza que os pais precisam ficar atentos nas atitudes da criança. O medo excessivo causa reações fisiológicas e comportamentais que prejudicam a rotina da criança. Portanto, muita atenção nas palavras, cuidado com os programas na televisão e internet.

“É preciso avaliar caso a caso, estar atento aos sintomas apresentados por cada criança, mas de uma forma geral, é preciso avaliar até onde o medo apresentado é normal ou exagerado e se tem causado sofrimento e algum tipo de prejuízo à criança. Importante que os pais verifiquem sempre a classificação indicativa do que os filhos têm acesso na televisão e internet”, orienta a psicóloga.  

Quero ser policial

Mas também há o outro lado. Em Pinhais, cidade vizinha de Curitiba, há uma casa em que a polícia é muito bem-vinda. Pietro Henrique Machado, 6 anos, sonha em ser policial quando crescer e até já é amigo dos agentes de segurança, sendo sempre convidado pela Polícia Militar (PM) para eventos. Pietro gosta de estar com seus ídolos e tem até uma fardinha própria que ganhou.

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O pai do menino, o motorista de ônibus Mauro Cristiano Machado, 42 anos, acredita que a admiração do filho pela polícia vem do avô, que foi guarda municipal. “Acredito que o Pietro se espelhou no meu pai. A farda de Pietro é completa, foi doada e levamos na costureira para diminuir o tamanho. Ele adora participar de eventos como desfiles e brinca de policial todos os dias com os irmãos”, enfatiza o pai.

“Ele fala que vai ser policial no futuro. Tenho muito orgulho disso e sei que ele vai caminhar para o caminho do bem”, completa o pai.

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